Bancada Trans: Benny Briolly

Bancada Trans: Benny Briolly

​A representatividade radical não se mede apenas pela ocupação de um cargo, mas pela capacidade de transformar o próprio corpo — historicamente marginalizado e violentado — em instrumento de poder, legislação e enfrentamento institucional. Em 2026, Benny Briolly, a primeira travesti eleita e reeleita vereadora em Niterói (RJ), prepara-se para testar essa premissa no cenário nacional. Após treze anos de militância no PSOL e uma trajetória forjada nos movimentos de favela, no povo de axé e na defesa dos direitos humanos, a parlamentar oficializou sua filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT) e o lançamento de sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados.

​A mudança partidária não foi descrita como resultado de conflitos locais, mas de uma avaliação tática sobre o enfrentamento à extrema-direita e o avanço do conservadorismo. Segundo a vereadora, “derrotar o conservadorismo, enfrentar a extrema-direita e reconstruir direitos exige ampliar trincheiras”. O movimento também se insere em uma articulação mais ampla: a consolidação de uma bancada trans pluripartidária no Congresso Nacional, com a missão de pautar os direitos das populações historicamente excluídas.

​O Pioneirismo e a Força Institucional

​O mandato de Benny Briolly em Niterói demonstra como a vivência da exclusão pode se materializar em propostas legislativas abrangentes e interseccionais. Longe de restringir sua atuação a uma única pauta, a vereadora vem utilizando a Câmara Municipal para propor políticas públicas que reconhecem e enfrentam as opressões cruzadas de gênero, raça e classe.

​A produção legislativa de 2026 reflete essa estratégia. Entre os projetos em tramitação, destaca-se o Projeto de Lei nº 280/2026, que institui a Política Municipal de Promoção da Saúde Mental das Mulheres. O texto adota expressamente a interseccionalidade como princípio e prevê ações de acolhimento para mulheres sobrecarregadas pelo trabalho de cuidado e vítimas de violências institucionais e domésticas. Na mesma linha, o PL nº 279/2026 propõe atenção integral à saúde da mulher no climatério e na menopausa, fases frequentemente invisibilizadas no sistema público de saúde.

​O combate à discriminação é outro eixo central. O PL nº 185/2026, aprovado em primeira discussão no legislativo municipal, estabelece diretrizes básicas para o enfrentamento da intolerância religiosa e a implementação de uma cultura de paz. A vereadora, praticante de religião de matriz africana, também propôs a criação de um programa de assistência às vítimas de intolerância (PL nº 178/2026) e datas oficiais de conscientização, como o Dia Municipal da Aceitação, Respeito e Tolerância Religiosa.

​Resiliência frente à Violência Política

​Para uma travesti negra e favelada, o exercício do mandato legislativo no Brasil impõe um custo físico e psicológico severo. A trajetória de Benny Briolly expõe a violência política como uma barreira estrutural projetada para expulsar corpos dissidentes dos espaços de decisão.

​As ameaças de morte, agressões verbal e hostilizações — muitas de teor abertamente racista e transfóbico — forçaram a parlamentar a deixar o país brevemente em 2021 e a integrar o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. A gravidade da situação levou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) a outorgar, em julho de 2022, medidas cautelares em favor de Benny e sua equipe. A CIDH reconheceu o risco irreparável à vida da vereadora e determinou que o Estado brasileiro garantisse sua segurança, marcando a primeira vez que a Comissão concedeu tal proteção a uma travesti.

​O sistema de justiça também foi provocado a agir. Em um caso emblemático, o deputado estadual Rodrigo Amorim foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro por violência política de gênero, após referir-se à vereadora como “aberração da natureza” na tribuna da Assembleia Legislativa em 2022. Em outubro de 2025, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve a condenação e as penas restritivas de direitos, consolidando o entendimento de que a proteção legal alcança as mulheres trans e que a imunidade parlamentar não pode servir de escudo para discursos de ódio.

​Apesar das respostas institucionais, a violência persiste no cotidiano. Em maio de 2026, Benny Briolly precisou ser hospitalizada após ser empurrada e atingida por spray de pimenta durante uma manifestação pacífica pelo direito ao uso de banheiros conforme a identidade de gênero em um shopping de Niterói. Episódios como esse evidenciam que a disputa não ocorre apenas nas urnas ou no plenário, mas no direito básico de existir e transitar na cidade.

 

​O Futuro da Esquerda e os Corpos no Centro do Debate

​A pré-candidatura de Benny Briolly à Câmara dos Deputados representa um teste sobre a capacidade do campo progressista de integrar, na prática, as demandas econômicas, raciais e de gênero. Ao articular projetos de saúde integral, combate ao racismo religioso e geração de renda para a população LGBTQIA+, ela propõe uma agenda em que a justiça social não se desvincula da reparação histórica.

​O ingresso no PT indica uma busca por maior capilaridade nacional e estrutura partidária para enfrentar a máquina conservadora. Se a eleição e reeleição em Niterói — com 4.801 votos no pleito de 2024 — romperam o isolamento local, a disputa por Brasília exigirá mobilizar uma base eleitoral disposta a sustentar uma representatividade que não recua diante da violência. A trajetória de Benny Briolly sinaliza que a política transformadora depende, irrevogavelmente, da coragem de colocar o próprio corpo na linha de frente.

​A Urgência e o Impacto de uma Bancada Trans no Congresso

​Mais do que candidaturas isoladas, a consolidação de uma bancada trans no Congresso Nacional é uma necessidade vital para a sobrevivência e a dignidade de uma parcela inteira da população brasileira. Em um parlamento historicamente dominado por lógicas cisnormativas e conservadoras, a presença coletiva e coordenada de parlamentares trans desloca a nossa existência da margem do debate para o centro do poder político. Uma bancada trans unida e pluripartidária tem a força necessária para blindar direitos duramente conquistados, barrar projetos de lei antitrans que avançam pelo país e formular políticas de Estado efetivas voltadas à saúde, à segurança e à empregabilidade de pessoas trans e travestis. Trata-se de transformar a dor e a exclusão histórica em um bloco de resistência inegociável, mostrando que Brasília não pode mais decidir o futuro dos nossos corpos sem que estejamos na mesa de discussões.

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