Lena Oxa: “Eu sou a história viva!”

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**Lena Oxa: “Eu sou a história viva!”**

Desafiando as estatísticas cruéis que ainda hoje limitam a expectativa de vida de travestis no Brasil a meros 35 anos, Lena Oxa caminha para sua sexta década de vida como uma verdadeira força da natureza. Mais do que uma sobrevivente, ela se orgulha de ser a “história viva”. Em uma trajetória que se confunde com a própria memória da comunidade LGBTQIAPN+ cearense e brasileira, Lena transformou a dor em palco, a invisibilidade em militância e a exclusão em espetáculo.

​A vida de Lena, no entanto, não é um conto de fadas puramente feito de paetês e glamour. É uma narrativa talhada na carne, erguida tijolo por tijolo através de reinvenções forçadas por um mundo hostil. Conhecer a fundo quem é Lena Oxa é um passo fundamental para compreender como o direito de existir de forma autêntica foi conquistado a duras penas no Brasil.

As Primeiras Cores de Uma Identidade

​Nascida em Fortaleza, a jovem que um dia foi designada sob um nome masculino cresceu alimentando fantasias ao som de Nina Hagen e Tina Turner, maravilhada com o brilho das chacretes na televisão e a nudez libertadora do Carnaval. O estalo da mudança começou a acontecer na adolescência, quando ingressou no tradicional Liceu do Ceará. Foi lá que cruzou com Dami, um amigo que lhe abriu as portas da noite fortalezense e do universo artístico que, até então, ela desconhecia.

​A vontade de ser estrela e de formar uma dupla de dança bateu de frente com as limitações de sua própria expressão de gênero na época. Para brilhar como desejava, concluiu que precisaria se fantasiar. O resultado? Foi expulsa três vezes do colégio.

​O processo de hormonização veio de forma clandestina e cheia de riscos, tomando pílulas de Diane 35 por conta própria. A dilatação do peito a obrigava a usar faixas para esconder as mudanças do pai, um homem religioso com quem, ironicamente, ela frequentava a missa matinal após passar a madrugada se apresentando. Quando o segredo se tornou impossível de esconder, o choque familiar foi inevitável. A jovem saiu de casa, indo morar em um cabaré chamado “Sonho Azul” com um segurança. A inocência ficava para trás, dando lugar à necessidade latente de sobrevivência.

Anos de Chumbo: A Repressão nas Ruas de Fortaleza

​A Fortaleza da década de 1980 era um território de guerra para qualquer pessoa que fugisse à cisheteronormatividade. Lena, que na época adotou o nome artístico de Tina Azevedo, viveu na pele a violência de um estado repressor. A gestão da Secretaria de Segurança da época autorizava a prisão indiscriminada de gays e travestis.

​A regra não escrita era clara: travestis não podiam andar na rua. Se Lena pegasse um ônibus, a polícia a arrancava de lá. Se fosse presa numa sexta-feira, passaria o fim de semana inteiro encarcerada, perdendo a chance de trabalhar e brilhar nos palcos.

​A violência não era apenas privação de liberdade; era tortura física e psicológica. Lena recorda de prisões em que dezenas de pessoas da comunidade eram atiradas em porta-malas ou enfileiradas de mãos atadas no centro da cidade. Por ser travesti, a punição era dobrada sob a sádica justificativa policial de ser “macho e fêmea”. Em uma dessas sessões de agressão, um policial chegou a estourar seu ouvido. Apesar de tudo, sua essência permaneceu inabalável: “Eu nunca deixei de ser quem sou”.

Marta Helena e a Desilusão Europeia

​A pressão insustentável a empurrou para um ônibus rumo a Salvador. Durante as 21 horas de viagem, decidiu que nasceria mais uma vez. Adormeceu como Tina e acordou como Marta Helena. Na capital baiana, a sorte lhe sorriu momentaneamente ao conseguir usar seu talento para o desenho, trabalhando por 12 anos como estilista nas Lojas Esplanada. Foi nesse período que tomou a decisão irreversível de colocar próteses de silicone, assumindo de vez seu corpo diante de uma sociedade ainda menos preparada para aceitá-la.

​O alto custo de vida e a necessidade constante de novos figurinos para seus shows a fizeram buscar o sonho europeu. Vendeu tudo o que tinha, até o tapete de casa, e cruzou o oceano. A Europa, contudo, não entregou o glamour prometido, mas sim a dura realidade da prostituição imposta a quase todas as travestis imigrantes. Recusando-se a seguir esse caminho, Lena usou suas mãos para sobreviver: começou a confeccionar perucas.

​Foi dividindo quarto com uma colega e ouvindo repetidamente as músicas da cantora Anna Oxa que a epifania final aconteceu. Juntou “Lena” com o sobrenome da artista italiana. Sete letras, um número de sorte. Nascia, em definitivo, Lena Oxa.

Retorno a Salvador e o Risco de Morte

​Com dinheiro para pagar as dívidas e comprar uma casa, Lena Oxa retornou a Salvador com uma bagagem muito mais pesada e politizada. A convite do historiador Luiz Mott, tornou-se presidente da recém-criada Associação de Travestis de Salvador (ATRAS).

​Sua liderança foi testada a ferro e fogo. Quando um policial transfóbico assassinou brutalmente uma travesti na praia (obrigando-a a mergulhar sob a mira de tiros), Lena não se calou. Reconheceu o corpo no IML, organizou abaixo-assinados, protestou na porta da Secretaria de Segurança Pública e botou a boca no trombone na televisão.

​Sua coragem a tornou um alvo prioritário. Com a cabeça a prêmio e precisando disfarçar a aparência para não ser morta, foi salva por um habeas corpus preventivo impetrado por ativistas locais e, por medida de segurança, orientada a fugir de volta para o Ceará.

A Revolução em Fortaleza e o Fenômeno ‘Glitter’

​Em 1999, Lena retornou a Fortaleza não como uma fugitiva, mas como uma mulher formada na “faculdade da vida”. Trabalhando na lendária Boate Divine, ela ajudou a mudar a postura da comunidade perante o medo. Quando o camburão da polícia apitava do lado de fora, ao invés de correrem, as “gatas” faziam pose e não saíam da frente. Essa nova atitude culminou na organização da primeira Parada Gay de Fortaleza, que reuniu 500 pessoas sob a liderança de Lena — um marco revolucionário para uma cidade onde, anos antes, elas sequer podiam caminhar na calçada.

​Sua irreverência e capacidade de comunicação a levaram para a televisão. Foram 20 anos de TV Diário, consolidando-se não como alvo de piadas, mas como jornalista formada, editora e apresentadora do quadro “Caçadora de Mistério” no Programa Ênio Carlos.

​Mas o ápice do seu legado midiático ocorreu em 2012, com a criação de “Glitter: Em Busca de um Sonho”. Produzido “na raça”, sem patrocínio e filmado e editado pela própria Lena, o reality show tirou 12 travestis das ruas e as colocou na TV aberta. Bordões criados no programa ecoam na internet até hoje. Mais do que entretenimento, Lena estava fazendo o que sempre acreditou: ressocializando e dando a oportunidade para que aquelas mulheres se descobrissem artistas, cabeleireiras e maquiadoras.

​”Para o programa eu peguei as meninas no meio da rua […] e transformei todas elas em artistas. […] Eu gosto de ressocializar as pessoas para que elas se sintam gente.”

A Política, o Etarismo e a Cidadania Negada

​Em 2016, impulsionada pelo desejo de levar sua luta ao legislativo, Lena candidatou-se a vereadora. A experiência resultou em uma profunda decepção: recebeu apenas 721 votos. A falta de apoio da própria comunidade feriu suas esperanças e revelou a dura realidade de um eleitorado que ainda carece de consciência e união política.

​Hoje, beirando os 60 anos e celebrando 43 anos de carreira artística, Lena Oxa vende acarajés para garantir seu sustento de forma honesta. A militância não parou, mas se adaptou. Ela agora levanta a bandeira contra o etarismo, mobilizando a criação de um grupo “50+” para garantir que os veteranos da arte LGBTQIAPN+ não sejam esquecidos por uma juventude que, muitas vezes, desconhece o sangue derramado para que os direitos de hoje fossem possíveis.

​Mesmo sendo uma lenda viva, o Estado brasileiro ainda falha com ela. Sem ter retificado seu nome de registro, Lena continua sofrendo o constrangimento de ser tratada no masculino em postos de saúde. A cidadania plena, pela qual lutou a vida inteira pagando seus impostos, ainda lhe soa como uma promessa distante.

O Céu de Uma Estrela

​Lena Oxa nunca precisou imitar divas. Sua maior inspiração sempre foi a própria sobrevivência. Com a sabedoria de quem lutou contra ditaduras, violência policial, exploração internacional e o esquecimento de sua própria comunidade, ela permanece de pé.

​Ao refletir sobre a morte, Lena revela o cansaço acumulado por décadas de perseguição, mas também a certeza de sua própria luz:

​”Quando eu morrer, tire o peito, tire tudo, pra quando chegar lá em cima não ter um despeitado que queira me tombar. […] Porque é ruim, é triste quando você é perseguida por ser gay, por ser uma pessoa… E quando eu morrer quero ter paz, quero tirar tudo e entrar no céu linda. Até porque eu sou uma estrela e meu lugar é no céu.”

​A trajetória de Lena Oxa é, fundamentalmente, um documento histórico da resistência no Brasil. Que suas reinvenções nos inspirem, que suas feridas nos ensinem, e que sua presença marcante jamais permita que a sociedade ouse esquecê-la. Lena Oxa não apenas fez história; ela é a história em seu formato mais puro, cru e indomável.

 

Viver de maneira autêntica e plena é um direito de todos. Lena Oxa nos ensina que, ao contar nossas histórias, estamos reivindicando nosso lugar no mundo. Esse site, o Vida Trans, é um reflexo dessa luta coletiva e do desejo de existir sem pedir licença. Que a trajetória de Lena continue a ser uma fonte de inspiração, um lembrete poderoso de que cada história merece ser ouvida e cada vida, celebrada. Em última análise, somos todos parte dessa história, e juntos, podemos criar um futuro onde todos possam viver com dignidade e respeito.

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