O Genocídio Silencioso: Por que o Brasil Atingiu o Limite da Barbárie Trans

Vidas Trans Importam! O nosso grito, que deu origem a este espaço, nunca foi tão urgente. Não podemos mais aceitar que a nossa existência seja sinônimo de resistência exaustiva e, para muitas de nós, de morte prematura. O Brasil, mais uma vez, falhou. E falhou de forma brutal.

O Dia da Memória Trans (TDOR), celebrado em 20 de novembro — também conhecido como Dia Internacional da Memória Transgênero — é dedicado a honrar a memória de pessoas trans e travestis assassinadas em decorrência da violência transfóbica. A data convida à lembrança de suas vidas e reforça a urgência da luta contínua contra o ódio e a discriminação.

No Brasil, além do TDOR, celebra-se em 29 de janeiro o Dia Nacional da Visibilidade Trans, voltado à promoção da cidadania, dos direitos e do reconhecimento social de pessoas trans e travestis.

Ainda assim, o Dia da Memória Trans não é apenas uma data de luto. Trata-se, sobretudo, de um dia de denúncia, que escancara uma realidade marcada pela violência sistemática. Os dados mais recentes do relatório Trans Murder Monitoring (TMM) 2025, somados aos levantamentos da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), confirmam aquilo que a população trans vivencia cotidianamente: o Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, mantendo essa posição alarmante pelo 17º ano consecutivo.

 

A Liderança da Morte: Números que Gritam

Entre 1º de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025, o mundo registrou 281 assassinatos de pessoas trans e de gênero diverso. O Brasil, sozinho, responde por aproximadamente 30% desses casos globais. Este não é um dado estatístico frio; é a prova de que existe uma estrutura social, política e institucional que tolera, invisibiliza e, pior, legitima o nosso extermínio.

 

Quando olhamos para o perfil das vítimas, a dor se aprofunda e o caráter do genocídio se revela:

Perfil das Vítimas de Transfeminicídio


Fonte: Trans Murder Monitoring (TMM) 2025 e ANTRA

88% Mulheres Trans/Travestis: Isso mostra que a violência não atinge a todos da mesma forma; ela é focada em quem expressa a feminilidade trans.

88% Negras ou Pardas: Aqui vemos o racismo. A maioria das vítimas sofre duas vezes: por ser trans e por ser negra. É o que chamamos de “interseccionalidade”.

 

 

Característica Percentual Significado
Mulheres Trans/Transfemininas 88% A matança é um Transfeminicídio e Travesticídio direcionado.
Negras ou Pardas 88% A violência é profundamente interseccional, marcada pelo racismo estrutural.
Menos de 40 anos 75% Nossas vidas são ceifadas na juventude, com 5% das vítimas sendo menores de 18 anos.

A maioria de nós é assassinada com armas de fogo, muitas vezes nas ruas, em um ciclo de violência que nos nega o direito básico de envelhecer. O que estamos vivendo não é uma fatalidade, mas um ataque direto e planejado contra os corpos que ocupam o lugar mais vulnerável da opressão no país.

 

Distribuição por Faixa Etária

Gráfico: Distribuição por Faixa Etária das Vítimas
Fonte: Trans Murder Monitoring (TMM) 2025 e ANTRA

As três barras mais altas (19-25, 26-30 e 31-40 anos) mostram que a morte chega muito cedo. Somando essas barras, vemos que 75% das vítimas não chegam aos 40 anos. A pequena barra de 5% (Menos de 18 anos) é a mais triste, pois mostra que até adolescentes estão sendo assassinados.

 

 

O Alvo Agora é a Esperança

Se a violência já era insuportável, o relatório TMM 2025 traz uma tendência ainda mais alarmante: o aumento no assassinato de ativistas e lideranças de movimentos trans. No período analisado, 14% das vítimas eram pessoas que se organizavam, mobilizavam e denunciavam a injustiça.

 

“Cada ativista assassinada representa uma comunidade silenciada.” [1]

 

Este aumento, que saltou de 6% em 2023 para 14% em 2025, não é coincidência. É uma tentativa clara de calar a nossa voz, de desarticular a nossa luta e de nos negar o direito de sonhar com um futuro onde possamos viver sem pedir licença. Eles não estão apenas matando corpos; estão tentando matar a nossa esperança e a nossa capacidade de resistência.

Aumento Alarmante de Ataques a Ativistas Trans

Gráfico: Aumento Alarmante de Ataques a Ativistas Trans
Fonte: Trans Murder Monitoring (TMM) 2025 e ANTRA

Este é um gráfico de tendência. Ele mostra como a situação está piorando para quem tenta lutar. Em 2023, 6% das mortes eram de líderes ou ativistas. Em 2025, esse número subiu para 14%. A linha subindo indica que quem coloca a cara a tapa para defender a comunidade está correndo cada vez mais perigo. É uma tentativa de calar as nossas vozes.

 

O Que Não Pode Continuar

A nossa dor é política. O nosso luto é uma denúncia. E a nossa exigência é de mudança imediata. Não podemos mais aceitar a inércia do Estado e da sociedade.

 

Exigimos:

 

  • Legislação de Crime de Ódio: Que proteja explicitamente pessoas trans e travestis, qualificando e agravando a punição para o transfeminicídio.
  • Políticas Públicas Interseccionais: Investimento em proteção, segurança e inclusão, com recorte de raça e classe, para as pessoas mais vulneráveis.
  • Apoio às Lideranças: Estrutura, financiamento e segurança para as organizações que estão na linha de frente do combate a este genocídio.
  • Fim da Criminalização do Trabalho Sexual: A precarização social e a criminalização de meios de subsistência expõem ainda mais a população trans à violência.

 

A vida trans importa. E importa agora. O Brasil precisa sair do topo deste ranking de barbárie. A nossa existência é legítima, e o nosso direito de viver é inegociável. Que este grito se torne ação.

 

 

 

Referências

[1] Trans Murder Monitoring (TMM) 2025. Dados citados no artigo “TDoR 2025: Brasil segue no topo da barbárie liderando assassinatos de pessoas trans” – Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). URL: https://antrabrasil.org/2025/11/12/tdor-2025-brasil-segue-no-topo-da-barbarie-liderando-assassinatos-de-pessoas-trans/

[2] Dossiê de Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2024. Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). URL: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2025/01/dossie-antra-2025.pdf 

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